terça-feira, outubro 28, 2014

Abra os olhos e... Veja!





Particularmente odeio artigos onde um "Manual de Instruções" sobre sua leitura, precede o conteúdo.
Mas em tempos de tanta confusão mental por conta do recém terminado período eleitoral, talvez ele se faça necessário.


Antes de tudo, dispa-se de CONCEITOS e seus "PRÉS", dentro da ideia rasa de que "Criticar a Revista Veja significa defender o Partido dos Trabalhadores" ou compactuar com toda forma de corrupção dentro deste país.
Afaste os demônios que sussurram no seu ouvido o Mantra de que "atacar a cretinice significa compactuar com o cerceamento da Liberdade de Expressão".


Dito isto, sigo em frente...


Os últimos cinco ou seis dias que antecederam o Segundo Turno das eleições presidenciais, me trouxeram uma tenebrosa e mórbida recordação, uma espécie de Dejavú lá para o esquecido ano de 1989, ano em que o Brasil começava a engatinhar de volta ao processo democrático, após rastejar na lama por duas décadas, chafurdado em uma Ditadura Militar corrupta, criminosa e arbitrária.



Naquelas eleições, o Ponto de Racha foi tamanho, que Comunistas, Socialistas e o recém fundado PSDB marcharam de mãos dadas, numa época em que a sigla da "SOCIAL DEMOCRACIA" ainda fazia sentido sob as asas do tucano. Eram tempos em que Lula, Mario Covas, Miguel Arraes e Leonel Brizola ou davam as mãos, ou os filhotes da Ditadura se reproduziriam perpetuando sua espécie.
Diante de uma Esquerda imatura e tão deslumbrada quanto a nova democracia que se desenhava, a derrota de Lula foi inevitável. 

Afinal, se fez de tudo para que ele - justamente o menos preparado entre os outros - fosse enviado para a degola do 2º Turno contra o bem arquitetado Collor de Mello.
Em 1989, até a ida de Lula ao Segundo Turno, foi tácita e silenciosamente "permitida" pela Mídia.

Afinal Brizola era um perigo assustador; ele jurou contestar o monopólio da Rede Globo e ameaçou já naquela época, democratizar os meios de comunicação de massa.




Naquele momento da história do Brasil, a imprensa que havia sobrevivido à Ditadura estava completamente comprometida com a mesma ou com o que ainda restaria dela após a redemocratização do país, afinal sua sobrevivência havia implicado em duas décadas de conivência, silêncio e abono.
Quem não se comprometeu com os Militares, teve suas prensas confiscadas, seu material retirado das bancas e seus jornalistas demitidos, presos ou desaparecidos. 


Sobreviveram como Marco Principal e Sustentáculos do Poder, as Organizações Globo, do jornalista e fundador Roberto Marinho e o Grupo Civita, fundado por Victor Civita com o nome de Editora Abril em março de 1950.


Ao longo das décadas seguintes, Globo e Editora Abril formaram um leque de publicações em forma de Telejornais, Enciclopédias, Revistas e Jornais que serviram de aporte quase oficial de todos os governos militares, estendendo sua atuação no período pós abertura com José Sarney de 1985 até 1990.


Em 1968, no auge da repressão aos meios de comunicação, o fechamento do congresso e a prisão de líderes estudantis e sindicais, o filho de Victor Civita, Roberto Civita, teve a brilhante ideia de criar uma Revista Semanal - algo novo no Brasil até então.
Surgiu a Revista VEJA.

Ironicamente, a Veja surgiu em meio a Ditadura com uma forte tendência CENTRO-ESQUERDISTA, o que foi dissipado nos anos seguintes em troca de espaço, propaganda e da Liberdade de atuar sem ser censurada previamente pelos militares.


Primeira capa da Revista Veja - 11 de Setembro de 1968


Se a Globo se beneficiou de gordas isenções e duvidosas partilhas em concessões de rádio e televisão com a Ditadura, a Editora Abril, uma vez que revistas e jornais não necessitam de concessão pública para atuar, funcionou como uma espécie de tentáculo impresso atuante para manter a Mídia sempre silenciosa e conivente com uma máscara de isenção e neutralidade nas entrelinhas.




Ao longo de mais de três décadas, a Veja colecionou algumas reportagens sensacionais, que lhe rendeu prêmios nacionais e internacionais e uma certa credibilidade jornalística, mas também não deixou de passar vergonha, como em 1975 ao afirmar em uma Reportagem Própria, a existência do Monstro do Lago Ness na Inglaterra; o que veio admitir em público mais tarde, se tratar de uma fraude. Em 1983, baseou-se numa pauta humorística de um jornal britânico, para afirmar a criação em laboratório de uma fusão entre células animais e vegetais. A matéria foi um dos maiores micos do jornalismo nacional e rendeu um pedido de desculpas formal da Editora Abril ao público.


A partir dos anos 80, a Veja mergulhou fundo no universo político e suas colunas e matérias defendendo claramente o neoliberalismo econômico e as políticas de Direita foram ficando cada vez mais evidentes.


Até aí tudo bem...

O grande problema da Veja foi tentar vender uma ideia sem assumir sua posição, disfarçando-se sob o manto da neutralidade aparente, diferentemente do que fazem por exemplo as Revistas CARTA MAIOR e CARTA CAPITAL, que são aberta e declaradamente de viés ideológico esquerdista.


Em uma postagem de 2012, o Gotas de Ácido aceitando um desafio de um leitor, publicou 30 capas da revista VEJA em que o material era declaradamente de conteúdo crítico ao ex presidente Fernando Henrique Cardoso durante seus dois governos, de 1994 a 2002.
Talvez tenham sido as únicas 30 capas entre as mais de 2.000 edições da revista, em que o alvo de ataque tenha sido um partido e um governo dito de "Direita".

Raramente vê-se a Veja questionando suas premissas ideológicas e econômicas, escassas são as vezes em que é aberto o direito ao contraditório e dificilmente uma fonte dita "confiável" é de fato confiável.




O Papel da veja em 1989


Em 1989, a Veja foi diretamente responsável pela criação do Mito do Caçador de Marajás, em cima da imagem do então governador de Alagoas Fernando Collor de Mello. Na outra ponta da Mídia - a parte televisiva de massa - estava a Rede Globo com a mesma fomentação da imagem de "Salvador da Pátria" atribuída ao até então desconhecido político de Alagoas. Sem o advento das redes sociais na época, poucos sabiam que Collor recebia apoio em massa dos militares e de toda a Borra Suja e Nefasta que governara o Brasil nas últimas décadas.

Se ela ajudou a alavancar Collor rampa do Planalto acima, ela mesma se encarregou de varre-lo do poder em 1992, quando deu ouvidos a Pedro Collor de Mello e iniciou em suas páginas o "Movimento Cara Pintada".


Ainda assim, Lula e Brizola - que abertamente defendiam a democratização das Mídias já nos anos 80 - foram sistematicamente atacados, ridicularizados e massacrados nas páginas da Veja e nas demais publicações do Grupo Abril entre 1986 e 1989 e sem o menor espaço para a defesa.


Até aí tudo bem...? Certo?
Não.
Errado!

Não por serem Lula e Brizola, mas porque a Revista estava rasgando e pisoteando em cima de alguns dos pilares do Jornalismo; o equilíbrio e a ética; o compromisso com a verdade factual investigada e comprovada.


A Veja jamais declarou-se PRÓ alguma coisa ou "anti" alguma linha ideológica. Ela fazia malabarismos e sapateava com a inocência de um público virgem á uma nova liberdade de expressão sem censura de um período pós repressão que ela mesmo foi conivente.


Por muito tempo, a Revista foi considerada por grande parte do público como "Referência em Jornalismo".
Ela aproveitou-se deste momento para emplacar as mais sórdidas mentiras em uma época em que a Esquerda ainda não detinha o Poder e obviamente mesmo que pretendesse mais tarde, não tinha acesso ao Universo da Corrupção.


Em um desesperado ato contra a Democracia, acusou falsamente o então candidato Lula de ter uma filha fora do casamento e sequer pagar pensão alimentícia. Lula e Lurian, sua filha, foram à TV desmentir a revista, junto à sua ex-mulher.
Mas já era tarde demais.
O estrago causado em mais de 1,5 milhões de exemplares vendidos nas bancas, já havia sido feito.


Quando se pensou que aquilo seria o máximo onde poderia chegar em 89, seus repórteres CRIARAM junto ao núcleo de informações da Rede Globo, a mentirosa notícia de que "Um Grupo Ligado ao PT" teria ajudado no sequestro do Empresário Abílio Diniz, presidente do grupo Pão de Açúcar, EXATAMENTE no dia da votação do Segundo Turno entre Collor e Lula.
Jamais isso foi comprovado ou sequer considerado como plausível para a própria polícia civil carioca e um dos envolvidos presos, declarou mais tarde, em 1994, que tudo não passara de uma manipulação da imprensa.
Veja e Rede Globo calaram-se a respeito.
Apenas a revista MANCHETE, já em vias de fechamento, ousou tocar no assunto.
Mas sua tiragem nas bancas era infinitamente menor na época.



Dilma e a cartada final


Estou longe de crer em "Golpe Midiático" como acreditam alguns dos meus amigos blogueiros, jornalistas ou militantes partidários. Particularmente acredito que o Brasil já passou dessa fase ou deste perigo iminente; talvez a prova disso esteja nos mais de 51 Milhões de Votos que Dilma recebeu nas urnas com ou sem pressão, o que sepulta e abafa qualquer delírio ou tentativa de delírio neste sentido, ainda que eu não duvide de mais nada...


Mas a "cartada" dada pela revista Veja em sua edição 2.397, cuja tiragem foi antecipada na semana eleitoral a fim de obter maior propagação e repercussão nas bancas, independente de posições políticas, independente do fato de existir ou não corrupção na PETROBRÁS passa longe de ser um MATERIAL JORNALÍSTICO e entra no desprezível quadro dos "Folhetos Partidários". 


E o pior disso: Emitido por um conglomerado imenso de Mídias representado pela editora Abril, onde ainda restava (Restava!) algum resquício de credibilidade apesar de tudo.


E aí eu começo a entender quem vive aterrorizado com a história de "Golpe"...
Afinal, como já mostrei aqui, eu vi isso em 1989. Ninguém me contou.


A opinião não é uma exclusividade deste Blogueiro, apenas para avisar... A opinião verte até mesmo em jornalistas da Rede RBS, como o repórter Antonio Carlos Macedo da Rádio Gaúcha, que emitiu uma forte crítica de quase cinco minutos à revista Veja após o fechamento das urnas no último domingo. 


Isto porque durante TODO o período eleitoral, enquanto PT e PSDB desfilavam e destilavam suas mais sórdidas acusações - umas infundadas e outras nem tanto! - a Revista Veja simplesmente omitiu-se de cutucar, investigar ou mostrar em suas páginas qualquer tipo de crítica ou denuncia contra o PSDB.


Ainda que o PT tenha sido o responsável pelo combustível que gerou inúmeras denúncias em seu governo - afinal não há santos nem no Planalto, nem na Petrobrás! - é absurda a pressão desigual, tendenciosa e sistemática feita pela Veja APENAS em cima do Partido dos Trabalhadores.


A revista chegou ao ápice do absurdo, ao defender pontos de vista que nem mesmo Aécio Neves defendia em seu projeto de governo, vendendo a informação enlatada nas colunas amargas de Reinaldo Azevedo.

E quem me chamou atenção disso, acreditem, foi um membro do PSDB!


Isto sim, é uma afronta à tão alardeada LIBERDADE DE EXPRESSÃO, pois parto do princípio da ampla defesa e do mínimo de isenção - ainda que considerada por muitos como intocável -  para que algo possa ser chamado de Jornalismo.

Definitivamente a Veja faz tudo, menos Jornalismo.
Se restava alguma dúvida, independente da Presidente Dilma Rousseff ter ou não responsabilidade - ela foi esclarecida na última semana.

Digo isso, pois não foi nenhum Senador da República, Ministro de Estado ou Juíz de Direito a acusar um presidente na última semana de uma campanha eleitoral. Foi um doleiro nanico, sem a mínima credibilidade; pressionado e agarrado a uma delação premiada. E sabe-se bem, nem a Polícia dá crédito á cagoetas, quando lhes oferece bônus em troca de informações.

A Veja agarrou-se cegamente a isso e publicou como verdade inquestionável sem direito ou intenções de contraponto.


Não que o PT não tenha semeado isso...
Isso vem sendo plantado e já foi matéria aqui no Gotas de Ácido.
Mas a Democracia perde quando a grande imprensa se transforma em um panfleto contra qualquer partido ou ideologia, principalmente quando ela usa de uma falsa neutralidade. E a Democracia é muito maior do que qualquer instituição partidária. 

Nessa hora cabe destacar a atuação da Revista CARTA CAPITAL, que mesmo declarando seu apoio à candidatura de Dilma, não utilizou do jogo baixo na reta final; manteve a ética em meio a um mar de lixo atirado por Blogs independentes de direita ou de esquerda e sem a menor responsabilidade.

Apesar de tudo, dentro da minha inocência utópica, eu não me surpreendi com o papel da Veja.

Infelizmente são comportamentos assim, cada vez mais frequentes nos meios de comunicação, que irão culminar com a OBRIGAÇÃO DO DIREITO DE RESPOSTA, algo que seria natural e espontâneo, se todos pelo menos tentassem no mínimo flertar com a ética na informação.




Eduardo Bozzetti